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Investigação apura possibilidade de que produtor rural tenha sido executado por PMs em Pelotas

A hipótese é de que o produtor rural teria sido atingido por um tiro quando já estava caído.

Redação GV
Por: Redação GV Fonte: GZH
23/01/2026 às 16h51
Investigação apura possibilidade de que produtor rural tenha sido executado por PMs em Pelotas

Depoimentos, áudios e perícias colhidos até agora indicam a possibilidade de que o plantador de morangos Marcos Daniel Nornberg, 48 anos, tenha sido executado por PMs após confronto no dia 15 na zona rural de Pelotas, no sul do Estado. A hipótese é de que o produtor rural teria sido atingido por um tiro quando já estava caído. Testemunhos e vídeos entregues pelos familiares às autoridades de segurança pública mostram a chegada dos policiais no sítio do agricultor, a abordagem, gritos e a troca de tiros entre os brigadianos e o produtor rural (que pensou estar sendo atacado por ladrões). As imagens são precárias, porque eram 3h e estava escuro. A viúva de Nornberg, Raquel Motta, prestou depoimento na Corregedoria da Brigada Militar e na Polícia Civil. Descreveu que estava deitada, a cerca de 20 centímetros do marido ferido, quando PMs se aproximaram e deram o tiro final. Um dos policiais teria comentado algo como "mexeu a cabeça", antes de dar o disparo, segundo Raquel.

O comentário do PM foi captado pelo áudio dos aparelhos do circuito interno de TV, mas só uma perícia técnica poderá confirmar o teor exato das palavras. As câmeras de vídeo estavam voltadas para a parte externa da casa. O disparo isolado é audível e corrobora o que disse a viúva — que o disparo foi feito cerca de 15 segundos após o fim do tiroteio inicial, o que pode indicar que Nornberg foi vítima de um "tiro de misericórdia".

Outra possibilidade, que ajudaria na defesa dos PMs, é de que os policiais tenham dado o tiro pensando que o agricultor ainda estaria apto a reagir com alguma outra arma. Isso poderia caracterizar legítima defesa por parte dos policiais, desde que não haja excesso nos disparos. No vídeo, eles gritam "perdeu, perdeu!".

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Está comprovado que, quando os brigadianos chegaram na propriedade, se identificaram e gritaram várias vezes: "É a Polícia!". Nornberg disparou pelo menos duas vezes com uma carabina calibre .22, para a qual ele tinha permissão de uso. Após os disparos dele, são ouvidos pelo menos 16 tiros, que seriam dos PMs, usando fuzis e pistolas. O 16º ocorre cerca de 15 segundos após cessar o tiroteio. Nesse caso, o policial que disparou pode ter cometido homicídio premeditado, doloso.

O plantador de morangos comprou a arma porque a propriedade foi assaltada há cerca de 10 anos, segundo familiares. Os bandidos inclusive teriam feito refém o pai dele e mentido que eram policiais, na época.

Outro indicativo de que Nornberg pode ter sido executado vem do laudo de necropsia, do qual Zero Hora teve acesso a um resumo. A perícia constatou que o produtor rural foi vítima de "múltiplos disparos de arma de fogo" e o exame cadavérico identificou diversos ferimentos por projéteis, incluindo tiros tangenciais na face, pescoço e região clavicular direita, os quais não contribuíram diretamente para a morte, bem como ferimentos penetrantes em regiões vitais. Conforme o documento, "os projéteis que efetivamente causaram o óbito foram aqueles que penetraram pelo ombro direito e pela região axilar direita, transfixando estruturas essenciais como pulmão direito, coração, diafragma e estômago, produzindo extenso dano tecidual e hemorragia interna maciça. Foi constatado lesões cardíacas graves, compatíveis com quadro letal".

A parte que indica o possível tiro fatal é essa:
"A perícia também concluiu que os disparos foram efetuados a curta distância, evidenciado pelas tatuagens de pólvora observadas na face e no pescoço da vítima. Quanto à dinâmica, os projéteis apresentaram trajetórias predominantemente da direita para a esquerda, de frente para trás e de cima para baixo".

O fato de ser de cima para baixo indicaria que Nornberg estava caído quando levou o tiro fatal. A chamada "tatuagem" é provocada por disparos à queima-roupa.

A Brigada Militar e a Polícia Civil não se pronunciam oficialmente sobre o andamento das investigações.

Equívocos na abordagem

Um outro ponto que é investigado, sobretudo pela Corregedoria da BM, é a ação inicial dos PMs que levou ao desfecho fatal. Os policiais militares dizem que entraram na propriedade de Marcos Nornberg porque receberam a dica de que o sítio servia como esconderijo de drogas, armas e carros roubados. Informação essa repassada por dois bandidos que roubaram um automóvel e uma caminhonete durante assalto a outra propriedade rural, perto dali. Os criminosos foram presos no Paraná, quando se encaminhavam para ir ao Paraguai, revender os veículos.

Policiais militares paranaenses que prenderam os dois ladrões ouviram a dica e a repassaram aos PMs de Pelotas. Inclusive teriam enviado a geolocalização do esconderijo, que apontaria o sítio de Nornberg. 

A seguir, um resumo das possíveis falhas investigadas pela Corregedoria da BM:

Pré-operação

Um informe (algo não confirmado) foi recebido e tratado como se fosse informação (algo confirmado). Falta de levantamento de informações sobre o alvo em potencial, o dono da propriedade rural. Ele não tinha antecedentes e morava há tempo lá. Não foi feita observação de campo (campana), para verificar presença de pessoas hostis ou movimento compatível com atividade criminosa.

Na pressa de capturar a suposta quadrilha, os policiais não esperaram o dia amanhecer — o que seria aconselhável, para reduzir a possibilidade de ocorrerem equívocos. Os policiais militares não avisaram a Polícia Civil, que poderia pesquisar de forma mais apropriada quem era proprietário do imóvel. A suposta geolocalização fornecida pelos bandidos que informaram os PMs a respeito do suposto QG da quadrilha estava errada ou sequer existia.

Durante a ação

Há suspeita de que alguns policiais não estariam uniformizados, por integrarem o serviço reservado da BM. Isso contribuiu para que o dono da casa pensasse que se tratava de assaltantes.

Os policiais não sabiam que o dono da casa tinha arma, inclusive regularizada. Era uma carabina (usada para caça e defesa). Os policiais reagiram ao tiro disparado pelo produtor rural. Até por isso, alegam legítima defesa. Só que teriam cometido excessos.

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